SPFW N60: Alexandre Herchcovitch

The designer revisits volumes from centuries past (accentuated hips, fitted corsets) setting them against exposed zips and martingales that pull taut the border between the handmade and the industrial, the classic and the contemporary.

Sarah Rocksane Araujo

Words by Sarah Rocksane Araujo

Editorial, Fashion and Beauty

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Sem recorrer a um tema único, escolha deliberada, fruto de maturidade criativa, o estilista apresenta uma coleção que funciona como ensaio sobre o ofício da costura: a roupa como arquitetura do corpo, a construção como discurso. A ausência de conceito narrativo dá lugar à presença da técnica, à precisão de quem domina o fazer e o coloca a serviço da forma. Os quatro primeiros looks já sinalizam essa direção: um conjunto de blusa de tricoline e calça de sarja, um vestido branco de crepe de caimento pesado e recortes laterais quase inteiros, uma camisa e bermuda de algodão, e um vestido preto longo, metade ajustado, metade solto. O contraste entre estrutura e fluidez, contenção e movimento, dá o tom de uma coleção que investiga o equilíbrio entre o visível e o invisível, aquilo que se mostra e o que apenas se sugere.

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Em comum, todas as peças revelam um rigor quase obsessivo com a construção. O vestido preto, por exemplo, é quase sem costuras; a bermuda traz estruturas internas que elevam as barras e revelam forros coloridos; as costas amplas de certos vestidos recriam a silhueta dos capuzes de moletom, gesto que aproxima o couture do cotidiano. O que parece sobreposição é, muitas vezes, uma única peça, engenhosamente articulada por pregas, pences e recortes estratégicos. Essa atenção ao detalhe, que atravessa toda a obra de Herchcovitch, encontra aqui uma clareza rara. Há ecos de alfaiataria, ecos de drama barroco, ecos do experimentalismo dos anos 1990, mas tudo submetido a um olhar mais sereno, quase científico. O designer retoma volumes de séculos passados, saias de quadril acentuado, corpetes ajustados, contrapondo-os a zíperes aparentes e martingales, que tensionam a fronteira entre o artesanal e o industrial, o clássico e o contemporâneo.

O desfile, nesse sentido, parece sintetizar um percurso de reconciliação. Herchcovitch, que sempre foi celebrado por sua capacidade de ruptura, agora pratica um tipo diferente de radicalidade: a radicalidade da sutileza. Ao abdicar de temas grandiloquentes, ele reivindica o direito ao essencial. Cada detalhe é intencional, cada dobra tem função. É um trabalho de precisão emocional, onde o rigor formal é o veículo da expressão. O resultado é uma coleção profundamente contemporânea, não porque adere a tendências, mas porque entende o tempo presente como espaço de multiplicidade e contradição. Em uma mesma peça, convivem o gesto histórico e a síntese minimalista; o fetiche do detalhe e a honestidade da forma. É a tradução madura de uma visão que, desde os anos 1990, ajudou a consolidar a moda brasileira como campo de pensamento e experimentação.

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