RioFW 2026: Salinas
A Salinas ocupou a passarela da Rio Fashion Week não apenas para validar seu domínio sobre o solar, mas para propor uma investigação profunda sobre a tradução da fauna brasileira em projeto de design.
Words by
Words by Sarah Rocksane Araujo
Editorial, Fashion and Beauty
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Sob a direção criativa de Adriana Bozon e o olhar de Gabriela Portella, o desfile transcendeu a categoria de beachwear para se instaurar como um exercício de semiótica ambiental. O que se viu foi a tentativa de capturar a efemeridade do voo e a textura das penas, transformando o bioma em um sistema de pensamento vestível.
Não se trata de uma mimesis ingênua da natureza, mas de uma reprogramação técnica onde o orgânico e o tecnológico operam em fricção, resultando em uma coleção que reivindica a moda como ferramenta de conscientização e preservação através da parceria com o Instituto Vida Livre.

A cartela de cores abandona a neutralidade para abraçar uma vibração que pulsa como organismo vivo. Os tons de azul profundo, vermelhos saturados e amarelos solares não funcionam apenas como pigmento, mas como a própria identidade das aves que inspiram a coleção. Bem-te-vis, araras e guarás não aparecem como estampas literais, mas como manchas aquareladas que atravessam os tecidos como se a cor fosse um fluxo em movimento. Há uma inteligência cromática no modo como essas tonalidades dialogam com a pele, criando uma zona de transição onde o corpo se torna suporte para um imaginário de liberdade. A cor aqui é território, e o contraste entre os brilhos das pedrarias e o opaco das fibras naturais organiza o olhar em um jogo constante de luz e sombra.

No campo do design, a silhueta Salinas oscila entre o rigor técnico e a fluidez absoluta, desafiando a rigidez do utilitário. A introdução da linha fitness, aliada a tecidos tecnológicos, apresenta uma proposta fashion que não sacrifica a funcionalidade, transformando o movimento do corpo em desenho. Em contraponto, a linha resort traz volumes que parecem suspensos, onde as formas deslizam e as proporções escapam do óbvio através de recortes estratégicos e transparências conscientes. O beachwear icônico da marca foi reconfigurado com um toque de passarela, onde o biquíni deixa de ser apenas uma peça mínima para se tornar um objeto de desejo carregado de informação de moda, afirmando uma sensualidade carioca que é, acima de tudo, construção e autonomia.

A materialidade da coleção é onde o discurso da marca se adensa e ganha tato. O uso de fibras naturais, veludo e tricô de couro estabelece uma relação sensorial com o vestuário, insistindo na importância do contato e da durabilidade. O destaque absoluto reside nos acessórios: o trabalho manual das Artesãs dos Pássaros do Caparaó e as criações em palha de tucumã da Aarta, produzidas por artesãos da Amazônia, deslocam o eixo da criação para um campo de valorização epistemológica do fazer ancestral. Essas peças não são apenas ornamentos; elas são signos de uma pesquisa material que articula sofisticação e ética, provando que a moda pode operar como suporte para sistemas de conhecimento que atravessam territórios.
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Para essa edição de outono do Complete Showroom, o time da Complete Magazine organizou um recorte de peças pensado a partir do uso ao longo
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