Otra Objects: como Rian Davidson transforma tradição construtiva em design contemporâneo em Barcelona

Do saber naval da Nova Scotia à precisão japonesa, o estúdio liderado por Rian Davidson propõe uma leitura estrutural do mobiliário.

Design // The New Layout
por Caíque Nucci
Fevereiro, 2026

Em Barcelona, o estúdio Otra Objects trabalha a partir de uma questão central: como recolocar a estrutura no centro do design? À frente está Rian Davidson, designer nascido na Nova Scotia, no Canadá, cuja trajetória atravessa carpintaria naval, arquitetura tradicional europeia e construção japonesa.

Davidson cresceu em um território marcado pela construção de barcos e pela carpintaria estrutural em madeira maciça. Spruce, maple, oak e birch faziam parte do cotidiano. A lógica dos encaixes, das vigas e das estruturas talhadas formou sua compreensão inicial de construção. Era uma prática ligada ao ambiente e à necessidade, distante da padronização industrial que hoje domina grande parte da produção global.

Nos últimos quinze anos, o designer percorreu oficinas e tradições construtivas na Europa e no Japão para entender como diferentes culturas resolveram problemas de estabilidade, proporção e permanência. Investigou sistemas de construção residencial, observando como técnicas emergiam do clima, da paisagem e das crenças locais. Essa pesquisa migrou naturalmente para o mobiliário da Otra Objects, onde cada peça parte da lógica arquitetônica antes de assumir forma final.

Um exemplo direto dessa abordagem é a Quadra Chair, produzida artesanalmente em Barcelona. A cadeira parte de uma exploração formal orientada pelo processo construtivo e é definida por uma silhueta angular precisa, quase gráfica. Construída em madeira de castanheiro certificada pelo selo PEFC, está disponível na versão raw, por €850, ou na versão charred, por €950, ambas finalizadas com hard wax oil para maior durabilidade. O que chama atenção não é apenas o desenho firme, mas a clareza estrutural: as linhas revelam o raciocínio construtivo que sustenta a peça.

O trabalho do estúdio evita excesso. Não há ornamentação nem gesto formal voltado ao efeito imediato. A complexidade está concentrada nos encaixes, nas proporções e no modo como as partes se encontram. Em alguns casos, o detalhe é visível; em outros, permanece discreto. O foco não está na imagem do objeto, mas na resolução da estrutura.

Enquanto grande parte do mercado opera sob ciclos rápidos e produção seriada, a prática da Otra Objects se organiza em outro ritmo. O desenho nasce da matéria. A forma acompanha a construção. A referência histórica não aparece como citação direta, mas como conhecimento incorporado.

O resultado são peças que carregam um senso claro de origem. A influência canadense se manifesta na honestidade estrutural. A tradição europeia surge no entendimento de escala e proporção. A disciplina japonesa aparece no tratamento do detalhe e na contenção formal. Não como mistura estética, mas como continuidade técnica.

Em um momento em que o design frequentemente privilegia acabamento e imagem, Rian Davidson trata o mobiliário como construção. E é nessa decisão — estrutural antes de superficial — que reside a relevância do estúdio hoje.

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