Na estreia de sua coluna para a Complete Magazine, o designer de moda Rafael Silveiro reflete sobre ruptura, identidade e os processos silenciosos de reconstrução.
A verdade é que muitos de nós ainda estamos a romper crenças limitantes, e fazer isso é uma espécie de morte e renascimento, a criação de uma mitologia na qual finalmente possamos acomodar o nosso tamanho. Isso significa romper com pessoas que ainda amamos e com hábitos que aprendemos que nos manteriam seguros, mas a verdade é que nenhum deles nos protegeu.
A fé imbatível é negar tudo que fora condicionado para encontrar, em outro tempo e espaço, uma versão de nós que seja maior que todo destino fadado, ter a coragem de aceitar a própria potência de criação, mas também a impotência de aceitarmos uma parte imutável.
Para onde foram nossos sonhos? Em que momento deixamos de acreditar antes de termos consciência do impacto dos nossos movimentos? Teríamos que sacrificar uma pureza nos gestos? Gentilmente, permitimos que o medo calculasse os nossos atos. Hoje vivemos cansados da cautela constante, a fim de evitar mais um embate, no cansaço dos personagens que inventamos para nós mesmos.
Com medo do confronto, buscamos conforto sem nos lembrarmos que, na busca por ele, apenas nos tornamos um rascunho de quem realmente somos.

Nosso coração vive espremido em alguns minutos entre uma viagem de carro de aplicativo e as lágrimas que rolam debaixo do chuveiro, antes de vestirmos o personagem que criamos.
Por que paramos de nos emocionar e deixamos de sentir? Apenas pela validação de uma autenticidade performática que não condiz com o tamanho da esfera que nos envolve?
Envoltos em um invólucro, ainda estamos incubados, gestando a nós mesmos em uma versão que nunca parece pronta o suficiente para ver a luz do dia. Entre uma pilha de afazeres práticos e a desesperança de um scroll infinito de notícias de guerra, memes que satirizam a realidade e dicas de coach com cinco hábitos para ter uma vida mais saudável, onde moram nossos sonhos?
Estamos esmagados pela montanha de opiniões alheias sobre nós mesmos e tudo ao redor, sem conseguirmos reconhecer a nossa própria, ouvir nossos pensamentos e sentimentos, sempre sendo escravos de nenhum deles?

Às vezes, a solidão é o único alívio que temos, mesmo famintos por um tipo de libertação, seguimos em silêncio.
Passamos tanto tempo sustentando todas as expectativas de ventos melhores, mas nunca despertamos para o chamado baixinho de nós mesmos. É preciso manter as estruturas que continuam a devorar o peito, sendo fortes, engolindo o choro e invertendo valores sem nunca entendermos as prioridades. Para quem foi feito para servir, os momentos de livre arbítrio se tornam verdadeiras torturas, de quem nunca antes teve a sensação de viver sem temer.
Vivemos na expectativa de chamar alguém de líder e reivindicar a falsa escolha autônoma sobre as nossas próprias vontades, na ânsia de algo que possamos esmagar, ou até mesmo ferir, seja o outro ou, pior, a nós mesmos.
Na apatia de um novo outono, vivemos na esperança de uma primavera, qualquer que seja.