Depois de mais de uma década sem semana de moda própria, o Rio estreia um evento que mistura desfiles, negócios e diplomacia criativa e levanta perguntas reais sobre o que uma fashion week precisa entregar hoje.
O calendário global de moda funciona como uma estrutura de poder. Paris, Milão, Londres e Nova York dividem entre si as semanas que pautam tendências, movimentam bilhões em ordens de compra e concentram a atenção da imprensa especializada de todo o mundo. Entrar nesse circuito, ou ao menos criar uma conversa paralela relevante com ele, é o desafio que qualquer fashion week fora desse eixo enfrenta. A estreia do Rio Fashion Week, que ocupa o Pier Mauá entre 15 e 18 de abril, precisa ser lida a partir disso. Não como um evento de moda carioca, mas como uma declaração de intenção sobre onde a moda brasileira quer se posicionar.

O modelo que o evento adota é menos o de uma semana de moda tradicional e mais o de uma plataforma de mercado com passarela. A estrutura é reveladora: de um lado, os desfiles de nomes como Normando, Isabela Capeto, Karoline Vitto, Patricia Vieira e Salinas; do outro, o Rio Showroom, salão de negócios voltado a compradores nacionais e internacionais, e um ciclo de business sessions com figuras como Imruh Asha, diretor de moda da Dazed Magazine, Alix Morabito, da Galeries Lafayette, e Stephanie Wenk, diretora criativa da Sauer. É uma configuração que o São Paulo Fashion Week levou anos para consolidar e que o Rio está tentando instalar desde a primeira edição. A aposta é alta, mas a lógica é correta: fashion week sem estrutura comercial é vitrine sem loja.

A diferença entre o RFW e o SPFW não é apenas geográfica. São Paulo construiu ao longo de três décadas uma identidade como capital da indústria de moda brasileira, com fabricação, varejo, atacado e formação. O SPFW, criado por Paulo Borges em 1996, nasceu dentro desse ecossistema e foi consolidando autoridade à medida que a indústria paulistana crescia. O Rio opera em outra chave: cidade com forte identidade cultural e estética, mas sem o mesmo peso produtivo no setor têxtil. O que o Rio Fashion Week pode oferecer que São Paulo não oferece é um ponto de vista diferente, um recorte de moda que passa pelo corpo, pelo clima, pela cultura de rua e pela conexão com o esporte e o entretenimento. A parceria com a Adidas em um desfile assinado por Rafa Pinah não é detalhe, é uma sinalização de território.

A operação por trás do evento é conduzida pela IMM Esporte e Entretenimento, empresa de Alan Adler que já organiza o SPFW, o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1 e o Rio Open. A escolha de Adler para operacionalizar o evento diz muito sobre o que a Prefeitura do Rio e a Secretaria de Turismo, representada por Daniela Maia, enxergam no projeto: não um evento de nicho para o mercado de moda, mas um acontecimento urbano com potencial de impacto econômico real, estimado em R$ 200 milhões e até R$ 1 bilhão em mídia espontânea para a cidade. A curadoria criativa coube a Olivia Merquior, que construiu a seleção de marcas a partir de um critério deliberado de diversidade regional, com representantes das cinco regiões do Brasil no line-up.

O Rio Fashion Week chega em boa hora. O mercado de moda brasileiro vinha operando com uma lacuna real no calendário: São Paulo consolidada, o Rio ausente. Preencher esse espaço com uma estrutura que combina passarela, negócios e formação desde a primeira edição não é pouca coisa. Fashion weeks levam anos para criar massa crítica, e o Rio já estreia com um line-up diverso, convidados internacionais e uma lógica de ecossistema que muitos eventos demoram décadas para construir. Independente do que vier a seguir, a iniciativa merece reconhecimento pelo que representa: a moda brasileira se apresentando ao mundo com mais de uma voz.