Há futuro possível para o design?
Em um campo cada vez mais colonizado por soluções tecnológicas, Anthony Dunne e Fiona Raby apontam um desvio necessário: e se o design servisse menos para moldar objetos e mais para tensionar ideias?
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Escrito por Gilles Pedroza Leite
Design e Inovação
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Diante de um mundo que insiste em repetir suas falhas com sofisticação crescente, talvez a pergunta mais radical que o design possa fazer hoje não seja “como resolver?”, mas “e se?”. Contra o impulso pragmático de converter todo futuro em uma agenda de inovação, o design especulativo, e seu aliado menos domesticável, o realismo mágico, propõe abrir rachaduras no real, onde ideias improváveis possam respirar. Não se trata de previsões ou tendências, mas de imaginação crítica. De deslocar o presente pelo absurdo, pelo lirismo, pelo impossível.

Em um campo cada vez mais colonizado por soluções tecnológicas, Anthony Dunne e Fiona Raby apontam um desvio necessário: e se o design servisse menos para moldar objetos e mais para tensionar ideias? Em Speculative Everything, os autores apresentam projetos que não pretendem convencer ou se tornar produtos, mas incomodar, sugerir, perturbar. Não sobre o que o futuro será, mas sobre o que poderíamos desejar.
Essa forma de projetar deixa de lado a ditadura da plausibilidade. Recusa o otimismo fácil das big techs e o fetiche por cenários previsíveis. Em vez disso, aproxima-se da literatura, da filosofia, da arte.É a metáfora, não a prova, que acessa o imaginário. Ao incorporar o realismo mágico como linguagem de projeto, o design assume que o futuro não é um destino a ser alcançado, mas um campo de possibilidades a ser cultivado. Pequenas distorções do presente, leves demais para o radar da engenharia, mas potentes o suficiente para reprogramar percepções, tornam-se ferramentas de crítica e encantamento. É possível projetar um mundo onde a dúvida seja mais fértil que a certeza.

Talvez o papel mais urgente do design hoje seja nos devolver essa capacidade de fabular com seriedade. De pensar o mundo não como ele deve funcionar, mas como ele poderia ser. E, nessa fabulação, ampliar as margens do possível.
Speculative Everything Design, Fiction, and Social Dreaming With
Anthony Dunne and Fiona Raby
MIT Press
$34,95
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