RioFW: Normando
In „Natureza Morta“, gezeigt auf der Rio Fashion Week, ordnet die Schau nicht bloß Looks, sondern ein Denksystem, in dem Material, Erinnerung und Form in ständiger Spannung stehen.
Text von
Text von Sarah Rocksane Araujo
Redaktion, Mode und Beauty
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Há algo de profundamente inquieto na maneira como a Normando ocupa a passarela: não como quem apresenta roupas, mas como quem arma uma mesa, e nos convida, quase sem permissão, a encarar o tempo servido em estado bruto. Em “Natureza Morta”, apresentada no Rio Fashion Week, o desfile não organiza apenas looks, mas um sistema de pensamento onde matéria, memória e forma se tensionam continuamente. A ideia de natureza morta, aqui, é recusada logo de partida: tudo pulsa, tudo está em processo, tudo insiste em voltar.

O que se vê nas imagens é um exercício radical de design como linguagem simbólica. A peça verde estruturada, que se projeta do corpo como uma folha expandida, não é apenas volume: é gesto. Há um rigor quase arquitetônico na construção, mas também uma organicidade que escapa, como se o tecido lembrasse que já foi planta. Essa mesma lógica se repete nas amarrações, nos trançados e nas estruturas que evocam o matapi, objeto geométrico ancestral que aqui reaparece como módulo, padrão, código.A coleção tensiona o limite entre o artesanal e o escultórico, entre o vestível e o simbólico, propondo uma roupa que não veste apenas o corpo, mas uma ideia de mundo.

A cartela de cores opera como um campo semântico próprio: o verde saturado não é tendência, é território; o preto vinílico não é apenas acabamento, é memória coagulada do látex, matéria que carrega em si a violência e a história do ciclo da borracha.Já o vermelho líquido do vestido que escorre rente ao corpo parece encenar esse mesmo tempo em outro estado: mais íntimo, mais visceral. E então surge o verde oxidado, quase mineral, evocando o bronze em processo de decomposição, não como decadência, mas como transformação inevitável.

Silhuetas clássicas (a alfaiataria, o vestido de festa, o conjunto) são constantemente interrompidas por interferências que deslocam sua leitura. Um blazer é atravessado por folhas que não são ornamento, mas estrutura; um top se torna suporte para formas orgânicas que tensionam o limite entre corpo e objeto; um acessório assume protagonismo quase escultórico, como se a função tivesse sido abandonada em favor do significado. Há uma insistência em quebrar expectativas, em recusar a neutralidade do vestir. A roupa não suaviza: ela confronta. No fundo, o que a Normando propõe é uma reconfiguração do próprio projeto de moda no Brasil. Ao mobilizar referências amazônicas não como exotismo, mas como epistemologia: como sistema de conhecimento e construção formal, a marca desloca o eixo da criação. Não se trata de representar a natureza, mas de operar com ela, de reconhecer que beleza e decomposição são processos simultâneos e indissociáveis.
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